... " Quero dormir e sonhar

um sonho que em cor me afogue:

verdes e azuis de Renoir

amarelos de Van Gogh." ...

António Gedeão
(1956)

terça-feira, 21 de junho de 2011

Pierre Bonnard

Li, há poucos dias, um artigo de Pedro Mexia, sobre o pintor Pierre Bonnard
(1867/1947).

É um artigo sobre a arte e a felicidade, que me deu prazer ler. Gostaria de o partilhar convosco:

" O que é a felicidade? Toda a gente diz que a arte se ocupa disso. E, no entanto, há, por exemplo, Bonnard.
Cheguei a Bonnard por causa de Degas, porque as banhistas de Bonnard são muitas vezes citadas a propósito das bailarinas de Degas. Mas as banhistas são o zénite de um percurso de júbilo. Bonnard parece ser o homem da abundância terrestre, das folhas, flores e frutos, e sabemos como a natureza era o seu ambiente natural, sobretudo nos últimos anos de vida, no refúgio dos Alpes Marítimos. A natureza em Bonnard, como tudo nela, aliás, é intensamente cromática, de tons laranja e violeta, impressionista no traço e iridescente na sensação. Mas reparem que Bonnard não se preocupa demasiado com a realidade tal como ela é. As regras da perspectiva não se aplicam, ele explicou que queria que tudo fosse visível em igual medida.

Jean Clair ( em "Bonnard", 1975) escreve que o pintor não representava nunca a realidade imediata mas uma realidade recordada. "Não pintar a vida, mas tornar a pintura viva", era o lema de Bonnard, e existe de facto uma estranha autonomia da arte face à realidade. É um real recordado, transfigurado, emotivo. O carpe diem , em Bonnard, não é a pura gratuitidade feliz do momento, como em Renoir, mas a persistência das coisas banais e boas que, revisitadas, ganham gravidade e enigma.

Esta pintura é tão temporal quanto intemporal. Em todas as telas encontramos um vigorosa existência do visível, e de um visível marcado pela passagem do tempo, nomeadamente pela meteorologia. É o visível que está em muito Cézanne e Matisse, mas é um visível frágil, perecível. Ao mesmo tempo, estes quadros podiam ser de qualquer época, tendo em conta os seus motivos, não há ´historicidade` aqui, apenas, década após década, as mesmas naturezas mortas e as mesmas janelas abertas sobre jardins.

Bonnard é o puro pintor, aquele que acredita mais na paixão do visível do que no cepticismo intelectual. Menorizado por alguns por causa dos seus temas demasiados comuns, demasiado burgueses, demasiado plácidos ou intimistas, Bonnard merece a atenção dos desatentos. Porque na irradiação das suas cores, na harmonia dos seus enquadramentos, no desenho das suas figuras, há uma visão inquieta das aparências, que é o mesmo que dizer uma visão inquieta da felicidade. É por isso que me lembro tanto dele.

Sobretudo, é claro, por causa dos nus. Esses nus que são, muitos deles, o mesmo nu, Marthe, que ele conheceu em 1893, e que se tornou seu modelo e depois sua mulher. Existe um tipo físico em Bonnard, como em Degas, as pernas longas, os seios pequenos e altos, as ancas estreitas, e existe uma situação típica o banho. Não são banhistas de mar, as de Bonnard, são mulheres que estão no banho, na banheira, esse local de culto ao corpo, à higiene, à intimidade.


" Crouching nude in the tub"


"La sortie de la baignoire"


" Nu jambe droite levée"


"Nu rose à la baignoire"

Em vez de, como em Renoir, o corpo feminino aparecer directamente associado à natureza, deitado na erva, oferecido, encontramos nestes nus um recolhimento ritual, são mulheres que estão sozinhas, que não estão a ser observadas, que não estão a seduzir ninguém, excepto, claro, Bonnard, que está em frente delas, excepto, claro, nós, que as vemos à distância no tempo. As bailarinas de Degas, que são uma das minhas ideias de felicidade, estão em espectáculo, ou vêm dele, ou vão para ele, mas o espectáculo dos nus de Bonnard é diferente, são Vénus domésticas, que umas vezes parecem estátuas, outras vezes simples silhuetas, que são a experiência imediata de uma felicidade imediata, recatada, finita.


~"Nu a contre-jour"


" Nu en hauteur"


"Dans le Cabinet de toilette"


"Femme devant un miroir"


É o hieratismo quase fictício de "Nu en hauteur" (1906), o movimento de "Femme penchée" (1907), a meninice de "Dans le cabinet de toilette" (1907), a sensualidade de "La cheminée" ( 1916), a quase bailarina de "Femme nue se baissant" (1923), aquele "Nu, jambe droite levée" (1924) cuja perna direita nem sequer se vê, é a composição perfeita de "Nu rose à la baignoire" (1926-1930), o vibrante "Nu de dos à la toilette" (1934), a Ofélia de "Nu à la baignoire" (1936), décadas com o mesmo motivo, com variações pequenas, e significativas de tão pequenas, e sempre ou quase sempre com Marthe.


A arte não se ocupa da felicidade? Quem disse? A felicidade não é apenas a euforia, e a euforia ruidosa. Pierre Bonnard, que acreditava na pintura, na natureza e na mulher, passou a vida inteira a representar, ou antes, a imaginar de novo, a pequena felicidade do visível. Uma felicidade discreta mas exigente, quotidiana mas altíssima. Que passa, como passou, quando Marthe morreu precocemente, por exemplo, mas que sobrevive nos quadros, visível e enigmática. Uma felicidade que se contenta com pouco porque é muito. Que acredita naquilo que vê porque vê aquilo em que acredita." *


Apreciei este texto. Parabéns ao seu autor, que escreveu sobre um pintor que "menorizado por alguns (...) merece a atenção dos desatentos".

* Publicado no suplemento "Atual" do Semanário "Expresso" de 10 de Junho de 2011,
pág.3

Nota - O artigo não continha imagens.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Retrato (s) ... de Fernando Pessoa

Lembrar Fernando Pessoa, no dia do seu aniversário (13 de Junho de 1888) - um dos maiores poetas portugueses.
Portugueses?
Não, Universais!


José de Almada Negreiros
Retrato do poeta Fernando Pessoa
Óleo sobre tela - 201x201cm
1954
Museu da Cidade, Lisboa


Júlio Pomar
Triplo retrato de Fernando Pessoa (alusão aos principais heterónimos?)
Óleo sobre tela
2007


Celito Medeiros
Retrato de Fernando Pessoa ( homenagem dos 120 anos de Fernando Pessoa)
Pintura a partir da escultura do Professor Lagoa Henriques situada no Largo do Chiado, Lisboa

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Desafios ... Resposta: Caspar David Friedrich

Resposta do post anterior:

Pintor - Caspar David Friedrich

Caspar David Friedrich (1774-1840), pintor alemão da época romântica.

A geração que cresce após as Guerras Napoleónicas e o Congresso de Viena, vive um novo ideal. Os temas tradicionais do classicismo são substituídos pelo mundo íntimo do artista.
A Alemanha desde 1770 conheceu uma corrente precursora do romantismo, o Sturm und Drang (tempestade e íntimo), que foi uma reacção ao racionalismo que o iluminismo do século XVIII defendia, assim como ao classicismo francês.
O movimento romântico surge inicialmente na literatura e na filosofia, mas rapidamente se estende à pintura e os pintores adoptam os pensamentos de Schelling, Fichte, Tieck e Schlegel que se opunham criticamente ao racionalismo do iluminismo e a obra de arte rapidamente se transforma "na voz interior", segundo a expressão de Caspar David Friedrich.
Segundo a filosofia da natureza de Schelling, os pintores passam a pesquisar os segredos do mundo, de acordo com a sua própria intuição e emoção. O tema preferido passa a ser a pintura de paisagens, mas em que a natureza é pintada com os reflexos que incutia na sensibilidade do pintor.
O conceito estético de Sublime, surgiu no século XVIII, transcende o de belo e pitoresco e serve para descrever o "estado de alma" que certas paisagens provocam.
O Sublime é a reacção natural de qualquer ser humano perante um objecto de extrema grandiosidade, como a extensão infinita do oceano, a imponência de uma montanha ou a solidão da floresta e que lhe provoca, simultaneamente, medo e prazer.


A obra de Caspar David Friedrich "Viajante observa um mar de bruma" é um verdadeiro manifesto ao romantismo. Nela encontramos o repertório iconográfico da época romântica: figuras solitárias e indefesas diante das forças da natureza.


Quadro - "Viajante observa um mar de bruma"
Óleo sobre tela, 98,4x74,8cm
1817 /18
Hamburgo, Hamburger Kunsthalle


Em primeiro plano está representado um monte escarpado pontiagudo e escuro onde, de pé, um viajante de costas para o observador, olha fixamente o horizonte longínquo.
Bem lá longe, surgem montanhas sobre nuvens de nevoeiro que se elevam das profundezas e das rochas áridas e aguçadas que emergem aqui e ali.
Mas o pintor não se limita a representar a natureza tal como ela é, dá-lhe um significado expresso através de símbolos: o homem de costas olha para um ponto inatingível e o que vê é, ao mesmo tempo, algo exterior e a projecção do seu eu.
Esta figura solitária tem uma dupla função na composição da obra, por um lado, marca a escala de grandeza, onde é reconhecida a superioridade da natureza e por outro lado, marca o ponto de contemplação, pois não estamos somente a olhar para uma paisagem, estamos a também a contemplar a experiência de um indivíduo perante a grandeza da natureza.
A pintura romântica pretende integrar o observador na obra, tal como as personagens, geralmente de costas, o observador contempla as paisagens distantes que se estendem à sua frente.
O próprio quadro transforma-se num espelho, em que o observador se quiser ver, para além de uma simples paisagem, terá de lhe dar um significado mais profundo, segundo as suas emoções.

Deixo-vos com algumas obras deste pintor:


"O caçador na floresta"
1814
Óleo sobre tela, 66x47cm
Colecção privada


"Os penhascos de Rügen"
c. 1818
Óleo sobre tela, 90,5x71cm
Museu Oskar Reinhart am Stadtgarter


"Mulher diante da aurora"
c. 1818/ 20
Óleo sobre tela, 22x30cm
Museu Folkwang, Essen


"A árvore com corvos"
c.1822
Óleo sobre tela, 59x73cm
Museu du Louvre, Paris


"A lua nasce no mar"
c.1822
Óleo sobre tela, 55x71cm
Nationalgalerie, Berlin



"Homem e mulher contemplando a lua"
c. 1824
Óleo sobre tela, 34x45cm
Nationalgalerie, Berlin

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Desafios ...

Mais um desafio!



Aqui vai, mais um repto.

Quem pintou este quadro cheio de mistério e sublimidade?

Ao olhar esta obra veio-me à memória um poema de Fernando Pessoa, que aqui deixo para vosso/nosso deleite:

" Braços cruzados, fita além do mar.
Parece em promontório uma alta serra -
O limite da terra a dominar
O mar que possa haver além da terra.

Seu formidável vulto solitário
Enche de estar presente o mar e o céu.
E parece temer o mundo vário
Que ele abra os braços e lhe rasgue o véu."

Fernando Pessoa - "D. João o Segundo" in "Mensagem"

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Os trabalhos de Eva Afonso




Eva Afonso
"Casa branca"
Óleo sobre tela - 30x40cm
2011

quarta-feira, 18 de maio de 2011

A não perder ... Exposição "Arte Portuguesa do Século XIX (1850-1910)" no Museu do Chiado

Uma boa sugestão de fim de semana será, certamente, uma ida ao museu.
Há sempre algo a descobrir e ainda mais quando este apresenta uma exposição com obras de grande qualidade.
Neste post quero assinalar uma exposição a não perder no Museu Nacional de Arte Contemporânea - Museu do Chiado (Lisboa) intitulada: "Arte Portuguesa do Século XIX (1850-1910)" e que termina já no próximo dia 12 de Junho!





Vista da Exposição
Galeria 1 - Piso 2A
Fotos Luís Piorro

Esta é a primeira de três exposições que vão decorrer no Museu do Chiado, para comemorar o seu Centenário.
Estes três momentos expositivos (1850-1910; 1910-1960; 1960-2011) abarcam toda a história da pintura portuguesa desde 1850 até aos nossos dias.

A 1ª exposição (1850-1910) é constituída por seis núcleos temáticos e mostra, através de 100 obras de grandes pintores deste período, como Alfredo Keil, José Malhoa, Silva Porto, Columbano Bordalo Pinheiro ou Soares dos Reis..., o núcleo fundador da colecção deste Museu.


João Cristino da Silva (1829-1877)
"Cinco artistas em Sintra"
Óleo sobre tela
1855


João Marques de Oliveira (1853-1927)
"Praia de Banhos, Póvoa de Varzim"
Óleo sobre tela
1884


António Silva Porto (1850-1893)
"Volta do mercado"
Óleo sobre tela
1886


José Malhoa (1855-1933)
"Clara"
Óleo sobre tela
1903

Esta é uma Exposição a não perder ...

terça-feira, 10 de maio de 2011

Os trabalhos de Eva Afonso


Eva Afonso
"Refúgio"
Óleo sobre tela - 41x33 cm
2010

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Observando um quadro ... de Giotto - nº 15

Giotto foi o pintor que abriu um novo capítulo na história da pintura.
Foi ele que rompeu com a tradição medieval, que consistia numa ordenação pictórica bidimensional e orientada segundo uma perspectiva hierárquica.
"Giotto cria uma pintura totalmente moderna, caracterizada por um forte pathos emotivo, de formas narrativas épicas e extremamente coerentes, por tons reais e profundamente humanos". *



Giotto di Bondone
"A Deposição de Cristo" ou "Lamentação pela Morte de Cristo"
(Pormenor do ciclo Cenas da Vida da Virgem e de Jesus)
Fresco - 200x185cm
Capella degli Scrovegni - Pádua
1303-1306

No quadro "A Lamentação pela Morte de Cristo"
podemos verificar que as figuras nele representadas já não são estereótipos pintados de acordo com o padrão tradicional, mas são apresentadas como seres com sentimentos, em pranto e luto frente ao corpo inerte de Cristo.
Todas as figuras que rodeiam Cristo mostram expressões de dor e gestos de grande sofrimento.

O ponto de entrada na composição é-nos dado por duas mulheres sentadas, cobertas por grandes capas, viradas de costas para nós.



Há um grande recolhimento nestas figuras, que colocadas na posição do observador, quase nos permite, pelo menos mentalmente, tocar no corpo de Cristo.

Também a figura de S. João mostra muito sofrimento.



Representado com os braços lançados para trás numa atitude profundamente dramática e com a boca meia aberta como que soltando um grito de dor.

Neste quadro, Giotto conseguiu dar novas formas à expressão da dor.

Até os anjos estão "humanizados"



e mostram sentimentos, chorando e esvoaçando desordenadamente, enchendo o céu de pranto.




Giotto inovou, não só na representação da expressão da dor como também na do mundo divino, que na tradição medieval era apresentado como uma esfera do além, em que toda a grandeza e perfeição eram dadas pela utilização de um fundo dourado.
Giotto substituiu esse fundo dourado por uma paisagem, transformando a superfície em espaço, em "espaço narrativo" como lhe chamou Wolfgang Kemp.
Na "Lamentação pela Morte de Cristo", criou uma paisagem através de uma linha de colinas ao fundo, rematada por uma árvore morta.

Giotto, neste quadro, numa forma muito original de compor esta passagem da morte de Cristo, usa o declive da rocha para descrever uma diagonal descendente que leva o olhar do observador até ao cadáver de Cristo, no canto inferior esquerdo, nos braços da Virgem Maria.



Há neste quadro um profundo luto.

* "Guia de História de Arte" - dirigido por Sandro Sproccati - Editorial Presença, 2009

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Giotto di Bondone

No último post coloquei uma imagem de um fresco de Giotto, pintado na Capella Scrovegni em Pádua.
Escolhi este trabalho pela temática alusiva à morte de Cristo, mas também por ter sido executado por Giotto di Bondone.
Muitas histórias e mitos se tecem à volta de Giotto.
Gosto particularmente de um episódio em que Cimabue, famoso pintor florentino, ao passar pela pequena cidade de Vicchio, observou o jovem Giotto que, enquanto tomava conta de um rebanho de carneiros, desenhava nas rochas um dos animais com tal precisão que o fascinou.
Sophia de Mello Breyner em "O Cavaleiro da Dinamarca" conta a história do seguinte modo: " Tal como Adão foi o primeiro homem da terra assim Cimabue foi o primeiro pintor da Itália. E foi ele quem descobriu o talento do jovem Giotto.
(...)
Enquanto as ovelhas pastavam a erva tenra de Abril, pastor, ajoelhado em frente dum penedo, desenhava. Era um rapazito que aparentava uns doze anos de idade e estava tão atento, tão absorvido no seu trabalho, que não viu chegar Cimabue (...).
Estava a desenhar um cordeiro. E havia tanto amor, tanta verdade e tanta beleza no seu desenho que o coração de Cimabue se encheu de espanto e de alegria.
(...)
- Como te chamas?
- Giotto.
- Ouve, Giotto. deixa as tuas ovelhas e vem comigo para Florença. Farei de ti meu discípulo e serás um dia um grande pintor."

E esta profecia cumpriu-se - Giotto tornou-se um grande pintor.
Tão afamado que Dante Alighieri na "Divina Comédia" -Purgatório- canto XI , faz uma reflexão sobre a efemeridade de toda a fama terrena e escreve:
"Cimabue acreditava deter o domínio na pintura mas agora o grito vai para Giotto e a fama do anterior é assombrada"

Também Giorgio Vasari, pintor e escritor de arte, descreve a relação entre Cimabue e Giotto como de mestre e aluno, mas ressalta que, a pouco e pouco, Giotto se foi tornando mais célebre, ensombrando o brilho de Cimabue.
Em 1550, Vasari escreveu as biografias dos mais importantes artistas italianos -"Descrição das Vidas dos mais famosos Arquitectos, Pintores e Escultores Italianos", que pode ser considerada a primeira "História da Arte". Nesta obra Vasari designa Giotto como "Pai da Pintura", fazendo-o encabeçar a lista dos pintores da modernidade.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Votos de Feliz Páscoa



Giotto di Bondone
"A Deposição de Cristo" ou "Lamentação pela Morte de Cristo"
(Pormenor do ciclo Cenas da Vida da Virgem e de Jesus)
Fresco - 200x185cm
Capella degli Scrovegni - Pádua
1303-1306

terça-feira, 12 de abril de 2011

Desafios ... Resposta: René Magritte

"Se eu soubesse pintar"

"Não tenho, nunca tive, engenho para a pintura,
mas se o tivesse gostava de pintar como Magritte ... "
José Jorge Letria

Cá está a resposta a este desafio:

Pintor - René Magritte
Título - "Saudade"
Ano - 1940



Segundo Marcel Paquet: " Magritte vira subversivamente do avesso a percepção: os objectos que pinta são todos claramente reconhecíveis provém de uma esfera banal e quotidiana, contudo, logo que pintados de uma forma bastante académica (...) mudam, e tudo mergulha na incerteza." *

Este pintor vai-se libertando das aparências de uma forma provocadora e surpreendente.
Assim, neste quadro, o leão e o homem alado ali estão, lado a lado, numa ponte, um sítio onde não parecem pertencer.
O homem está, de costas, perdido nos seus pensamentos, sonhando, melancolicamente, em fugir, voar ou até morrer, parece que quer escapar à prisão que este mundo representa.

* Parquet, Marcel - "Magritte" - Taschen - 1992

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Desafios ...

Mais uma vez lanço um repto àqueles que, além de amarem a Pintura, gostam de responder a desafios ...

Qual o pintor deste quadro?



Para polvilhar este desafio vou utilizar pepitas brilhantes de um poema de José Jorge Letria intitulado : "Se eu soubesse pintar", mas a que falta o nome do pintor.

"Não tenho, nunca tive, engenho para a pintura,
mas se o tivesse gostava de pintar como ....... ,
que é como quem diz: gostava de trocar as voltas ao mundo,
deixando, pelo menos na aparência, o essencial no seu lugar.
Gostava de inventar anjos vestidos de burocratas,
de encher as telas com espelhos que fossem janelas
abertas para outros espelhos que mostrassem a paisagem
manchada de sangue e de tinta de pintar papagaios de papel,
gostava de inventar reis com pés de mármore e de bronze,
paralisados na inércia imemorial dos seus tronos,
gostava de apedrejar estátuas gregas com maçãs de prata
e de retratar os deuses e os mitos com a inocência
desnorteante dos meninos perdidos na imensidão dos areais.
Mas eu não sei pintar, nem sequer me atrevo a tentar,
pois não seria audácia digna de perdão.

Eu pinto no que escrevo as coisas de que me lembro,
as que vão levedando na água turva da memória
alucinada pela pressa de uma vida a tentar viver
várias vidas de uma vez só."


Bom desafio ...

Ah! ...
Será dificultar pedir-vos o título deste Quadro?

terça-feira, 5 de abril de 2011

Os trabalhos de Eva Afonso



Eva Afonso
"Pausa na caminhada" - Serra de Sintra
Óleo sobre tela - 55x46cm
2011

quarta-feira, 30 de março de 2011

Por que gostamos de uma obra de arte?

Neste post quero deixar-vos um pensamento de Thomas Mann:

" Qualquer produto intelectual de valor que se pretende surta um efeito imediato, vasto e profundo, tem de conter uma secreta harmonia, uma afinidade mesmo entre o destino pessoal do autor e o destino da generalidade dos seus contemporâneos.
As pessoas não sabem por que razão atribuem fama a uma obra de arte.
Longe de serem "connaisseurs", julgam descobrir nela uma centena de virtudes para justificar tal apreço; mas o verdadeiro motivo do seu aplauso imponderável - é a simpatia."
Thomas Mann, in "Morte em Veneza"

Boas Reflexões !!!

quarta-feira, 23 de março de 2011

"Os Esposos Arnolfini" - Jan van Eyck

Gostaria de continuar com a análise da obra "Os Esposos Arnolfini" de Jan van Eyck.

Quantos enigmas pode encerrar um quadro ...

Quantas interpretações podem ser apresentadas ...

Este duplo retrato foi encomendado por um rico mercador italiano, Giovanni Arnolfini, ao já prestigiado pintor flamengo Jan van Eyck.
Este mercador estabeleceu-se na cidade de Bruges (Flandres), em 1420, atraído pelas possibilidades comerciais desta zona do Norte da Europa.
Arnolfini adquiriu uma extraordinária riqueza, da qual este quadro é um reflexo, integrou-se bem na sociedade flamenga e ocupou altos cargos na corte de Filipe o Bom.

Segundo Erwin Panofsky (historiador de Arte) esta obra seria a celebração do casamento de Giovanni Arnolfini com Giovanna Cenami e a demonstração do seu poder e riqueza.



Outra interpretação fala-nos de um possível exorcismo, ou cerimónia para recuperar a fertilidade, visto que Arnolfini e sua esposa não tiveram filhos.

Em 1990, o investigador francês Jacques Paviot descobriu no arquivo dos duques de Borgonha um documento do casamento de Giovanni di Arrigo Arnolfini datado de 1447. Se atentarmos na data inscrita no quadro - 1434, este não pode comemorar o seu casamento.

Além disto a descoberta que o modelo do esposo, neste quadro, não era Giovanni de Arrigo Arnolfini, mas sim o seu irmão Giovanni de Nicolao Arnolfini leva à reavaliação desta pintura. Poderá continuar a ter uma função comemorativa, mas foi encomendada para comemorar o primeiro aniversário da morte de Constanza Trenta, esposa de Giovanni di Nicolao Arnolfini, morta em 1433.

domingo, 20 de março de 2011

Desafios ... Resposta: Jan Van Eyck

Van Eyck com o quadro "Os Esposos Arnolfini" antecipa três futuros géneros da pintura: o retrato de corpo inteiro, o interior e a natureza morta.
Retrato - Esta obra é, sem dúvida, uma das contribuições mais importantes de Van Eyck no campo do retrato de um tema não hagiográfico.
Representa um dulpo-retrato, o casal Arnolfini.
O casal aparece em primeiro plano, de pé, sumptuosamente vestido. O marido estende a mão esquerda, onde se apoia a mão da mulher e levanta a direita num gesto de promessa, como a bendizer a esposa.


Jan van Eyck
"Os Esposos Arnolfini"
Óleo sobre madeira - 81,8x59,7 cm
1434
Londres, The National Gallery

Interior - É também uma cena de interior, em que Van Eyck nos abre a porta do interior de um quarto nupcial. Do lado direito está o leito com dossel coberto de panos vermelhos, e do lado esquerdo aparece, rasgada na parede, uma janela por onde entra suavemente a luz do dia que ilumina em cheio o rosto da mulher(o que nos traz à memória as pinturas de Vermeer).
Entre as personagens ergue-se uma linha central e vertical que começa no cão, passa pelo banco e mãos dos esposos, prossegue pelo espelho e assinatura do pintor e termina no lustre preso ao tecto.
O ponto de fuga, marcado pelo mobiliário,janela,tábuas do soalho e traves do tecto prolonga-se pelo espelho convexo, que é o elemento mais arrojado e inovador nesta obra.

Nele estão reflectidos não só o casal visto de costas, como mais duas personagens, uma das quais um auto-retrato de Van Eyck. Estas personagens assistem ao evento, partilhando o nosso espaço de observadores. Este artifício foi mais tarde usado por Velázquez em "As Meninas".

Natureza morta - Os socos de madeira, abandonados no lado esquerdo sobre o chão, também de tábuas de madeira, são uma verdadeira natureza morta.



Neste quadro os objectos colocados parecendo por casualidade têm uma interpretação simbólica. Os artistas do século XV representam muitos símbolos camuflados por objectos do quotidiano.

O espelho convexo - impecável (speculum sine macula) é o símbolo da pureza da Virgem e mostra a cena numa perspectiva inversa, em que podemos ver o casal por trás e ao mesmo tempo duas personagens, que assistem à cerimónia nupcial como testemunhas (naquela época não era necessário um sacerdote). O espelho é fundamental para mostrar a presença destas testemunhas, uma das quais seria o próprio pintor, vestido de azul.



E para que não houvesse dúvidas, na parede por cima do espelho, Van Eyck colocou a seguinte inscrição: "Johannes de Eyck fuit hic. 1434" ( Jan van Eyck esteve aqui. 1434).
A assinatura pode ter tido a função de testemunho de um acto solene - uma acta matrimonial.



O espelho colocado em lugar central apresenta uma moldura que exibe cenas da Paixão de Cristo e tem à esquerda, suspenso na parede, um rosário de contas de cristal, símbolo de pureza.Naquela época era comum o noivo oferecer à futura esposa um rosário, fazendo-lhe lembrar a necessidade de preservar a oração.



As frutas colocadas sobre a arca e o parapeito da janela evocam o estado imaculado que precede o pecado.



As laranjas não existiam no Norte da Europa, eram importadas do Sul. Conhecidas como maçãs do Éden estão neste quadro para lembrar que os filhos de Eva foram expulsos do paraíso por pecarem.

Os socos (os dela junto à cama e os dele em primeiro plano à esquerda) lembram-nos que o lugar é sagrado e alude a uma ideia de fertilidade.




Também as cores utilizadas têm um valor claramente simbólico: o verde do vestido da esposa é símbolo de fertlidade e os panejamentos vermelhos do leito nupcial alude à paixão.

A inclusão do cão aos pés dos noivos é mais um símbolo mas que alude à fidelidade.



Reparemos agora no lustre que, embora o quarto esteja banhado pela luz do dia, mantém uma vela acesa como símbolo do mistério de que Cristo tudo vê, e ao mesmo tempo representa a chama do amor que se pode consumir.



sexta-feira, 4 de março de 2011

Desafios ...

Este é um desafio fácil para todos os amantes de pintura.
É o quadro mais célebre de um pintor flamengo.




Atreva-se!

Qual o pintor?

Ah! Já agora, o título do Quadro?

Desculpem não poder dar prémio aos vencedores, mas o quadro encontra-se em Londres na National Gallery.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Observando um quadro ... de Matisse - nº 14


Henri Matisse
"Conversa"
Óleo sobre tela - 177x217 cm
Colecção Schukin, Moscovo,
posteriormente no Museu Estatal de Arte Moderna Ocidental de Moscovo;
no Ermitage desde 1948

Embora não seja, talvez, uma das obras mais conhecidas de Henri Matisse (1869-1954), é provavelmente a mais inquietante. A composição e a cor captam o olhar do observador.
"Sinto através da cor..."
Neste quadro Matisse "eterniza" uma conversa entre duas personagens que ladeiam uma janela que rasga uma parede azul, azul muito forte e que deixa ver a paisagem exterior, de cores joviais. Muito interessante é o desenho do varandim que, com as suas linhas curvilíneas, separa o espaço interior do exterior.
À direita está uma mulher sentada com um vestido de forte contraste cromático com a parede. À esquerda surge um homem, de pé, recortado sobre o fundo, dominando a mulher com a posição pronunciada de verticalidade.
Estas duas personagens mantêm uma conversa, apesar de separados pela janela.
Esta obra apresenta uma composição equilibrada na disposição das figuras que criam entre si harmonia e dissonância.

É um quadro interessante de Matisse, que foi um pintor que passou brevemente pelo pontilhismo e a partir de 1901 partilhou as pesquisas dos Fauves sobre a cor, mas que manteve uma linguagem extraordinariamente expressiva acima de qualquer mudança de gosto e de estilo.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Exposição de Pintura de Eva Afonso

Uma vez mais convido todos aqueles que quiserem estar presentes na inauguração de uma Exposição de alguns dos meus trabalhos na Galeria Municipal de Arruda dos Vinhos - Centro Cultural do Morgado, no dia 19 de Fevereiro pelas 16h.



A Exposição estará patente até 16 de Março de 2011.