Hoje inaugurou-se, pelas 18h, no Centro Cultural Palácio do Egipto, em Oeiras, a Exposição "O Jardim das Maravilhas" de Joan Miró ( 1893-1983 ).
Esta Exposição mostra-nos sobretudo a obra gráfica de Miró, nela são apresentados trabalhos realizados a partir de 1969, em Palma de Maiorca.
A autoria de muitas obras de Miró é facilmente identificável pela imagética (composição, traço, cor, movimento) que nos encanta por ser uma "arte lúdica", mas que é enganadoramente infantil.
Miró foi contemporâneo de correntes pictóricas como o fauvismo, o cubismo, o surrealismo, mas foi criando a sua própria linguagem, observando o Mundo e retratando-o como o teria feito o homem primitivo ou uma criança, mas com os olhos do homem maduro com preocupações e visão do século XX.
A partir de hoje até 26 de Setembro poderão ser vistas oitenta e cinco obras deste artista, no Palácio do Egipto, Oeiras.
É uma Exposição a não perder ...
( Um dia, prometo, voltarei a escrever sobre Miró, um dos meus pintores preferidos. )
A Exposição "Constant Le Breton" - patente na Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, merece a nossa visita. São momentos inesquecíveis frente a obras belíssimas de um pintor para muitos desconhecido.
Esta exposição foi inaugurada no passado dia 20 de Maio e termina a 8 de Agosto. Nela é feita uma retrospectiva da obra de Constant Le Breton (1895-1985).
Ao longo de seis núcleos são mostradas sessenta e sete obras (cinquenta e dois óleos e quinze aguarelas) que revisitam os temas que este artista gostava de desenhar e pintar - paisagens, vistas de Paris, retratos, naturezas-mortas e cenas de interior.
Constant Le Breton não seguiu as correntes do século XX, seguiu o seu próprio caminho, no entanto, há a referir que a sua técnica nos faz "viajar" até à pintura da segunda metade do século XIX - sendo notória a influência de grandes pintores como Corot, Boudin e Manet.
Há até quem veja nele a resistência às rupturas vividas no século XX.
Esta Exposição tem entrada gratuita, é bom haver exposições como esta que nos regalam a vista ( a propósito, as vistas de Paris são magníficas) e nos aconchegam as emoções.
Para compreendermos a pintura de Frida Kahlo (1907-1954) necessitamos de conhecer a sua vida.
Vida e obra desta pintora estão irremediavelmente ligadas.
Frida Kahlo foi uma mulher resistente, uma artista que deixou a sua marca pessoal na pintura do século XX, pois nos seus quadros há um grito surdo de dor, perante as adversidades da sua própria vida.
Frida Kahlo nasceu em Coyoacán - México, em 1907 e apesar da série de doenças, acidentes, lesões e operações que sofreu ao longo da sua existência, foi uma mulher forte, que encarou a vida com determinação.
Aos seis anos sofreu de poliomielite, o que lhe afectou o pé direito, aos dezoito teve um grave acidente de viação ( o autocarro em seguia, chocou com um eléctrico - várias pessoas morreram de imediato e Frida Kahlo ficou gravemente ferida).
Este acidente mudou os seus planos de vida e durante os longos meses que teve que ficar imóvel na cama começou a pintar para afastar o tédio e a dor.
Sobre este período, disse a António Rodríguez, crítico de arte: "Eu senti que ainda tinha energia suficiente para fazer outras coisas sem ser estudar para vir a ser médica. Comecei a pintar sem dar muita importância a essa actividade."
Começou assim o género de pintura que a caracterizou - o auto-retrato - sobre este assunto afirmou: " Pinto-me porque estou muitas vezes sozinha e porque sou o tema que conheço melhor."
A arte de Frida Kahlo é uma arte sofrida que representa simbolicamente as suas próprias dores, através de uma linguagem pictórica pessoal, com vocabulário e sintaxe próprios. Vejamos dois exemplos:
Frida Kahlo
"A Coluna Partida"
1944
Nesta tela representa a sua própria coluna como uma pilastra que se está a desmoronar, o que era literalmente verdadeiro, em consequência do grave acidente que sofreu. O seu corpo está cheio de pregos, através deles ela pretende representar a dor que sofria, ao mesmo tempo que lágrimas escorrem dos seus olhos.
Frida Kahlo
"O Veado Ferido" ou "O Veadinho" ou " Eu sou um Pobre Veadinho"
1946
Nesta obra Frida Kahlo representa-se como um veado na floresta, cheio de flechas e a sangrar. Estas flechas que perfuram o veado correspondem à barra de ferro que a perfurou no acidente.
A sua mensagem não é hermética: os seus quadros devem ser entendidos como resumos metafóricos das suas experiências concretas.
A sua pintura é sobre a sua própria realidade, sobre as suas dores físicas, não é imaginária, é coerente, real, segundo ela nada tem de surreal, não gostava de ser classificada como surrealista.
Muitos autores, entre eles André Breton, poeta francês e teórico do surrealismo, classificaram a obra de Frida Kahlo como surrealista, mas esta afirmou: "Pensavam que eu era uma surrealista, mas eu não era. Nunca pintei sonhos. Pintei a minha própria realidade"
Por isso eu afirmo, se não conhecermos a sua vida, nada entenderemos da sua obra.
Mulher cheia de força e de talento, em 1953 teve de amputar os pés, por causa de uma gangrena - em consequência dos seus problemas de saúde - mas como ela própria escreveu no seu diário: "Pés para que os quero, se tenho asas para voar?"
É simplesmente surpreendente a descoberta da vida e obra desta pintora ... por isso hoje sonhei com ...Frida Kahlo.
Gosto de retratos ... de observar álbuns de retratos, não por ter saudades do passado, mas pelo que o passado nos pode dar de ensinamento para o presente e para o futuro.
Mas gosto particularmente de retratos pintados.
Mozart (1756-1791) foi um dos compositores mais retratados, mas não sei se alguns desses retratos correspondem à imagem deste músico.
Dos muitos retratos de Mozart, os que a seguir apresento têm sido considerados autênticos.
Mozart na Corte da Imperatriz Maria Teresa
"Mozart na Corte da Imperatriz Maria Teresa"
Óleo atribuído a Pietro Antonio Lorenzoni
1763
Museu Mozart - Salzburgo
Este quadro é oriundo de Trento e foi pintado, provavelmente em Salzburgo, no ano seguinte às apresentações do menino Mozart, com apenas seis anos.
É de salientar o contraste entre a face infantil e rosada e o fato de gala (de adulto) oferecido pela imperatriz Maria Teresa.
Leopold com Wolfgang e Nannerl
"Leopold com Wolfgang e Nannerl"
Aguarela de Louis Carrogis de Carmontelle.
1763
British Museum
Esta aguarela pintada em Paris e posteriormente gravada por Jean-Baptiste Delafosse, é provavelmente o quadro original a partir do qual foram feitas várias cópias.
Em Junho de 1763, as três personagens representadas no quadro iniciam a primeira viagem pela Europa.
Esta obra de Carmontelle permite dar a conhecer ao grande público o rosto de Mozart e
na imprensa da época, pode ler-se o seguinte anúncio: "Aqui vê-se o jovem Mozart a tocar cravo, a sua irmã, ao lado, a olhar uma pauta musical e o seu pai atrás dele acompanhando-o com violino".
Mozart em Verona
"Mozart em Verona"
Óleo pintado por Saverio dalla Rosa
1770
Colecção particular de Alfred Cortot - Lausanne
Este quadro mostra Mozart com catorze anos, a iniciar a interpretação de uma composição para pianoforte.
Em finais de 1769 Wolfgang viaja com o pai para Innsbruck e depois para Verona, onde este retrato é pintado.
Segundo o destacado musicólogo Otto Erich Deutsch, este é o melhor retrato do jovem Mozart.
Mozart como Cavaleiro da Ordem da Espora Dourada
"Mozart como Cavaleiro da Ordem da Espora Dourada"
Pintura a óleo de autor desconhecido
1777
Museu Cívico e Musical de Bolonha
Este quadro é uma cópia feita pelo padre Giovanni Battiste Martini, com quem Mozart estudou em 1770 e 1777, aquando das visitas que fez à Itália.
Curiosa foi a visita de Mozart à Basílica de S. Pedro, em Roma em 1770, onde ouviu o "Miserere" do músico Gregorio Allegri e cuja partitura o papado proibia que saísse da Capela Sistina, para que não fossem feitas cópias. Mozart, com catorze anos, após a audição copiou toda a composição de memória. O papa Clemente XIV, em vez de o excomungar, como estava determinado para os infractores, distinguiu-o como Cavaleiro da Ordem da Espora Dourada, como ficou registado neste retrato.
A Família Mozart
"A Família Mozart"
Pintura a óleo de Johann Nepomuk della Croce
1780-81
Museu Mozart - Salzburgo
Neste quadro vê-se Leopold Mozart a segurar um violino e os filhos Wolfgang e Nannerl num gesto de interpretar piano a quatro mãos. Na parede está pendurada uma pintura da mãe, Anna Maria (já falecida). Ao fundo a figura de Apolo quer mostrar-nos que a família Mozart amava a música.
Mozart ao pianoforte
"Mozart ao pianoforte"
Pintura de Joseph Lange
1789-1790
Museu Mozart - Salzburgo
Esta pintura tem um tamanho surpreendetemente pequeno, mas foi executada com grande mestria, embora esteja inacabada.
Olhando a imagem parece que Mozart está a olhar a partitura antes de iniciar uma interpretação ao piano.
Este retrato foi pintado, pelo seu cunhado, pouco antes da morte prematura do compositor aos trinta e cinco anos e revela o calor e a proximidade de quem o conhecia bem e o apreciava.
Retrato de Mozart
"Retrato de Mozart"
Pintura de Barbara Krafft
1819
Sociedade dos Amigos da Música - Viena
Este quadro é considerado um retrato próximo das feições do compositor, embora tenha sido executado já depois da sua morte.
Que prazer é folhear este álbum de retratos, relembrar e homenagear Mozart, um génio universal e eterno e ... ouvir a sua música !!!
Van Gogh
"Père Tanguy"
Óleo sobre tela - 73x92cm
1887
Museu Rodin - Paris
Quem foi Julien Tanguy, considerado pelos pintores impressionistas um herói e tratado por eles carinhosamente como "Père Tanguy"?
Era um homem generoso, utopista, que comerciava na sua pequena loja, em Paris, materiais de pintura a crédito ou a troco de quadros de artistas pobres. Alguns pintores encontraram desta maneira o suporte que lhes permitia continuar a pintar.
Em breve, a sua loja tornar-se-ia galeria de exposições de obras de Paul Cézanne, Seurat, Van Gogh e Gauguin.
Van Gogh tinha por ele uma profunda amizade por isso pintou, com a sua pincelada curta e inconfundível, três versões do seu retrato, em que aparece sentado e com as mãos entrelaçadas. Em fundo representou gravuras japonesas que coleccionava. O Monte Fuji, por detrás da sua cabeça, pretende simbolizar a grandeza de carácter e a humanidade deste homem.
Em cartas ao seu irmão Theo, Van Gogh escreveu: " É um companheiro divertido e bondoso e penso muitas vezes nele" e mais tarde acrescentou: " Quando for velho, talvez me torne como o Père Tanguy. Evidentemente, não sei nada sobre o nosso futuro individual. Apenas sabemos que o Impressionismo irá perdurar."
Ao observar hoje o quadro "Père Tanguy", pretendi render uma singela homenagem a este amigo de artistas e ajudar a perpetuar a sua memória.
Gustave Caillebotte
"Os afagadores de soalhos"
Óleo sobre tela - 102x146,5cm
1875
Museu d'Orsay
Escolhi esta obra pelo rigor matemático com que Gustave Caillebotte a executou.
Este artista, desenhou uma a uma cada parte deste quadro, antes de as transpor para a tela.
A luz que invade a sala pela porta da varanda, ilumina os dorsos e os braços dos afagadores. As faixas escuras envernizadas brilham em contraste com o tom baço dos afagadores.
Os dois trabalhadores da frente executam os movimentos ao mesmo ritmo e conversam, o que está mais atrás está cortado, o que dá mais instantaneidade ao quadro. Há em toda a pintura um belo efeito de contra-luz.
Segundo Simona Bartolena "Caillebotte realiza uma composição muito original, com um ângulo pouco habitual, acentuado pelas linhas prospectivas do soalho, que conduzem o olhar até ao fundo da sala."
Caillebotte, aristocrata abastado, mas simultaneamente um mecenas para os seus amigos pintores - Monet, Degas e Renoir - surpreendeu tudo e todos ao considerar modelos e tema para um quadro, trabalhadores manuais a executarem o seu trabalho.
De sublinhar que a obra deste pintor, singular pelos temas escolhidos, em que transparecem o tédio e uma grande solidão nas personagens, ao contrário de outros impressionistas, não reflecte intenções moralizadoras, políticas ou sociais.
Este quadro, um dos mais célebres de Gustave Caillebotte (1848-1894), constitui uma das primeiras representações de trabalhadores urbanos, tendo sido considerado provocatório e por isso foi rejeitado pelo grande público e pelo Júri do Grande Salão Oficial em 1875.
De 4 de Junho a 31 de Julho vai estar patente uma exposição dos meus trabalhos, na Casa de Artes e Cultura do Tejo, em Vila Velha de Rodão, intitulada "Ecos de Silêncio".
A inauguração realizar-se-á pelas 18 horas do dia 4 de Junho.
Vai estar patente, de 15 de Abril a 13 de Junho, no Museu Nacional Soares dos Reis, no Porto, uma Exposição retrospectiva intitulada: "Nadir Afonso. Sem Limites". Nela estão reunidas cerca de centena e meia de obras deste artista, assim como um conjunto de estudos e documentação que permitem analisar e compreender o percurso de Nadir Afonso, entre os anos 30 e 60.
Esta mostra, segundo Adelaide Ginga, comissária da exposição," ... dá a conhecer a surpreendente contemporaneidade da sua obra com a estética surrealista, o abstraccionismo geométrico, a arte cinética".
Esta é uma exposição a não perder ...
Mas se não puder visitá-la no Porto, não se preocupe, ela segue para Lisboa, para o Museu do Chiado, de 23 de Junho a 3 de Outubro.
Nadir Afonso
"Munich"
Acrílico sobre tela - 99,5x95,5cm
Colecção Fundação Nadir Afonso
Ontem recebi do Centro de Artes e Cultura (CAC) de Ponte de Sor uma solicitação para divulgar uma iniciativa sua, intitulada "Um livro faz-me mais rico". Esta campanha inicia-se a 23 de Abril (Dia Mundial do Livro) e convida-nos a oferecer um livro e a enviá-lo para a Câmara ou para o CAC de Ponte de Sor, para que estes o entreguem a instituições carenciadas deste concelho. Não pude deixar de me solidarizar com esta iniciativa, pois tenho assistido à criação de muitos Centros e Casas de Cultura por todo o país e que têm feito um trabalho muito meritório a suavizar os efeitos negativos da interioridade no acesso à cultura.
Michelangelo Merisi, conhecido por Caravaggio "A Deposição no Túmulo" Óleo sobre tela - 300x203cm c.1602-1603 Pinoteca do Vaticano - Roma
Nesta época pascal apresento esta obra de Caravaggio de que gosto particularmente porque este pintor não retrata o enterro de Cristo de uma forma tradicional, tanto na composição como no movimento. Cristo é colocado pelo fiel Nicodemus e pelo amado João Evangelista sobre a Pedra de Unção, uma lage pontiaguda que ultrapassa o espaço cénico, vindo invadir o nosso próprio espaço, devolvendo-nos o Cristo da Paixão. Cristo é rodeado pela Virgem e pelas Santas Dolorosas num movimento descendente, em diagonal, partindo do canto superior direito trazendo as personagens para baixo tomadas por um sentimento de compaixão perante o corpo inerte de Cristo. Este quadro é uma das obras-primas de Caravaggio, foi encomendado por Girolamo Vitrici para a capela da sua família em Santa Maria de Vallicella - Roma. Actualmente faz parte da Pinoteca de Pio VII.
Desejo a todos os que visitarem este blogue uma Páscoa Feliz !
No passado dia 1 de Março completaram-se dois séculos sobre o nascimento daquele que foi um dos mais célebres pianistas do século XIX e um dos maiores compositores de música para piano: Frederic Chopin (1810-1849).
E por que falo hoje de um músico, se sempre me tenho dedicado aos pintores?
Porque encontrei um retrato deste fabuloso pianista executado por Delacroix (1798-1863) e também porque gostaria de assinalar o bicentenário do seu nascimento.
Não conheço melhor síntese sobre a universalidade da música de Chopin do que a de Arthur Rubinstein:
"Chopin fez uma revolução na música tradicional para piano e criou uma nova arte do teclado.(...) A sua música conquista as mais distintas audiências. Quando as primeiras notas de Chopin soam por entre o salão de concerto, há um feliz suspiro de reconhecimento. (...) No entanto, não é uma música romântica, no sentido byroniano. Não conta histórias ou quadros pintados. É expressiva e pessoal, mas ainda assim uma arte pura (...). A sua música é a linguagem universal da comunicação humana.
Quando toco Chopin sei que falo directamente para o coração das pessoas."
Chopin nasceu na Polónia, mas deixou-a aos vinte anos, indo viver para Paris.
É nesta cidade que conheceu e fez amizade com Delacroix.
Este pintor disse deste seu amigo: " Tenho conversas a perder de vista com Chopin, de quem sou muito amigo, é um homem com uma qualidade rara: é o artista mais verdadeiro que eu encontrei. É daqueles, em pequeno número, que se podem admirar e estimar."
Deixo-vos o retrato de Chopin executado por Delacroix ... dois príncipes do romantismo.
Eugène Delacroix
"Retrato de Chopin"
Óleo sobre tela
1838
Museu do Louvre - Paris
"Somente pela Arte podemos sair de nós mesmos, saber o que um outro vê desse universo que não é o mesmo que o nosso e cujas paisagens permaneceriam tão desconhecidas para nós quanto as que podem existir na Lua. Graças à Arte, em vez de ver um único mundo, o nosso, vêmo-lo multiplicar-se, e quantos artistas originais existirem tantos mundos teremos à nossa disposição, mais diferentes uns dos outros do que aqueles que rolam no infinito e, muitos séculos após se ter extinguido o foco do qual emanavam, chamasse-se ele Rembrandt ou Vermeer, ainda nos enviam o seu raio especial."
"A Parábola dos Cegos" ou "A Queda dos Cegos" é um dos quadros de Bruegel que me impressiona pela pouca variedade cromática ( dominam os tons castanho e cinza-azulado), pelo movimento, as personagens parecem estar a cair ao "ralenti", mas principalmente prende-me pela temática - cegos que conduzem outros cegos. O meu olhar fica perdido nos olhos dos cegos ou será o contrário?
Bruegel em "A Parábola dos Cegos" segue a parábola de Cristo quando Este se dirige aos Fariseus dizendo "... Deixai-os, são cegos a conduzir outros cegos! Ora, se um cego guiar outro cego, ambos cairão na cova" (Evangelho Segundo São Mateus,15).
José Saramago no "Ensaio sobre a cegueira" segue esta mesma ideia afirmando que "(...)deixando (...) de haver quem os (aos cegos) pudesse guiar e guardar (...) teria de suceder-lhes o mesmo que aos cegos da pintura, caminhando juntos, caindo juntos e juntos morrendo."
Esta pintura é uma magnífica metáfora contra os perigos da insensatez, da desorientação e do fanatismo.
Hoje volto ao tema de Pedro e Inês.
E por que não, se tantos artistas o imortalizaram?
Se num post anterior me referi a uma pintura executada por um pintor russo, hoje o meu interesse vai para alguns, dos muitos, artistas portugueses que abordaram este tema.
Pedro e Inês viveram a sua história de amor "... naquele engano d'alma, ledo e cego ..." (Camões - Lusíadas - canto III), até que El-Rei "...tirar Inês ao mundo determina..." (ibidem).
Columbano (1857-1929) registou esse episódio no Quadro :"A Morte de Inês".
Columbano Bordalo Pinheiro
"A Morte de Inês"
Óleo sobre tela - 246x196cm
1901-1904
Sala Camões - Museu Militar - Lisboa
Vieira Portuense (1765-1805) quis imortalizar, no Quadro: "A Súplica de Inês de Castro", o pedido de compaixão para a decisão tomada "... alevantando com lágrimas os olhos piedosos..." (ibidem).
Vieira Portuense
"A Súplica de Inês de Castro"
Óleo sobre tela - 196x150cm
c. 1802
Depositado no Museu Nacional de Arte Antiga
Mas ... El-Rei enganou-se porque nada nem ninguém poderia "... matar do firme amor o fogo aceso..." (ibidem).
A morte de Inês levou ao desvario de Pedro.
Lima de Freitas (1927-1998) imortalizou, no Quadro: "Coroação de Inês", o momento em que aquela "...que depois de morta foi rainha..." (ibidem).
Lima de Freitas
"Coroação de Inês"
Óleo Sobre tela
"Agora é tarde, Inês é morta" ... mas alcançou a eternidade a avaliar pela produção artística relacionada com a sua vida e morte.
Lenda ou história? Que importa?
Se esse amor é cantado, chorado, imortalizado passados tantos séculos?
Théodore Géricault
"A Jangada da Medusa"
Óleo sobre tela - 491x716cm
1819
Museu Nacional do Louvre - Paris
"A Jangada da Medusa" é um quadro monumental e está exposto no Museu Nacional do Louvre.
Escolhi, para observar, esta obra realizada por Théodore Géricault pelo significado que este pintor quis dar a um trágico acontecimento resultante de erros da Marinha francesa e que provocaram o afundamento da fragata "Medusa", ao largo da costa ocidental africana, em 2 de Junho de 1816.
A tripulação desta fragata abandonou 150 passageiros à sua sorte numa jangada e durante 13 dias esses passageiros estiveram à deriva, vivendo cenas completamente impensáveis de homicídios, canibalismo, loucura e morte.
Há neste quadro uma solidão angustiante, em pleno mar revolto, com tentativas desesperadas de pedir ajuda.
Foi este acontecimento que Géricault quis perpetuar nesta tela, pois os meios navais oficiais sempre o quiseram ocultar.
"A Jangada da Medusa" foi exposta pela primeira vez, em 1819, no Salon e não foi bem aceite pelo incómodo que causou.
"O meu perfil é duro como o perfil do mundo. Quem adivinha nele a graça da pintura? Pedra talhada a pico e sofrimento, é um muro hostil à volta do pomar. Lá dentro há frutos, há frescura, há quanto faz um quadro doce e desejado; mas quem passa na rua nem sequer sonha que do outro lado a paisagem da vida continua."
Miguel Torga - Diário VI 1953 (adaptado)