Pretendendo revisitar "Olympia" caminhamos ao longo da margem esquerda do Sena, cortamos para a Rue de Lille e entramos no Museu de Orsay, Paris.
E aí está ela desafiadora, a olhar-nos de modo insolente e seguro.
Édouard Manet
"Olympia"
1863
Óleo sobre tela - 130,5x190 cm
Museu de Orsay, Paris
Ó escândalo, dos escândalos, Édouard Manet pintou um nu feminino, mas bem real, nada idealizado ou escondido atrás de uma deusa ou figura mitológica.
A partir da segunda metade do século XIX, a simples prostituta diferencia-se da cortesã, porque esta tem um relacionamento com o cliente num ambiente de intimidade e sedução, fingindo honestidade.
Ora "Olympia" não é cínica, assume a sua sexualidade, através de uma profissão reconhecível, revela o seu desejo olhando directamente para o observador.
O próprio título "Olympia" era o "nome artístico" escolhido por muitas prostitutas da época.
Manet serviu-se de Victorine Meurent, modelo profissional, para dar corpo à personagem representada.
Pinta-a transportando-a para a contemporaneidade através do uso de adereços da época, como uma pulseira e pérolas no pescoço e nas orelhas.
Enfeita-lhe o cabelo com uma orquídea, referência ao sexo, já que está associada a poderes afrodisíacos.
No pé coloca-lhe uma chinela, que parece oscilar, a outra está caída (nas pinturas alegóricas, o chinelo caído simboliza a inocência perdida).
Aos pés de "Olympia", Manet não deitou um cachorrinho sonolento, como era usual, mas pintou um gato preto de olhos bem abertos, simbolizando a ambiguidade e a inquietude desta representação.
Do fundo negro do quadro sai uma criada negra que traz um ramo de flores - talvez seja o presente de um admirador anterior - o que sugere os prazeres oferecidos.
"Olympia" nem dá conta da sua presença, está concentrada na espera do cliente seguinte, olha-o de frente, provocadoramente.
E após esta visita, abandonamos o Museu de Orsay, deixando "Olympia" neste jogo sedutor com o próximo observador.
Resposta ao desafio anterior: Autor - Édouard Manet Obra - "Olympia"
Édouard Manet (1832-1883) pintou o quadro "Olympia" em 1863 e apresentou-o ao grande Júri do Salon oficial de Paris em 1865, tendo sido recusado, como muitos outros, devido à dureza dos critérios de selecção.
Este quadro provocou um grande escândalo tanto entre a crítica como entre o grande público, porque Manet apresentou uma obra totalmente nova, embora respeitando a composição clássica.
Édouard Manet estudou com paixão a arte do passado e foi buscar às obras "A Vénus Adormecida" e "A Vénus de Urbino" de Giorgione e Ticiano respectivamente, inspiração para pintar "Olympia".
Giorgione
"A Vénus Adormecida"
1508 - 1510
Óleo sobre tela - 108,5x175 cm
Gemäldegalerie, Dresden
Ticiano
"A Vénus de Urbino"
1538
Óleo sobre tela - 119x165 cm
Galleria degli Uffizi , Florença
Então quais as causas de tanto escândalo à volta da obra "Olympia"?
"Olympia" foi encarada como uma paródia grosseira de um tema respeitado.
Ao olhar para esta obra era evidente para todos que a mulher representada não era uma deusa, mas uma prostituta.
Manet pintou um tema clássico, mas deu-lhe uma vertente mais moderna e profana ao substituir os deuses e as figuras mitológicas por personagens da sua época.
"As pinturas iniciais (de Manet) (...) combinam temas modernos e derivações autoconscientes das obras dos Velhos Mestres com pinceladas aciduladas, contrastes acentuados e justaposições estranhas, colocando a imagística realista em face dos prazeres estéticos formais de modo inteiramente novo. Não é de estranhar o facto de estas obras terem chocado muito os seus observadores, pois a incongruência do seu método e o seu tom sério transmitem alguma perplexidade". *
O desejo de pintar com uma técnica arrojada fez de Manet um modelo para os jovens artistas impressionistas, mas ao contrário destes, continuou a acreditar na prática da pintura de atelier, seguindo as teorias tradicionais como o desenho, os esboços e as composições cuidadosamente planeadas, não podendo, por isso, ser considerado um impressionista no verdadeiro sentido da palavra.
* Kemp, Martin - História da Arte no Ocidente - Ed. Verbo, Lisboa, 2000 (pág. 308)
Ao folhear uma colectânea de poemas deparei-me com um de Vinícius de Moraes e que belo poema dedicado à mulher!
Hesitei entre transcrevê-lo completo ou apenas um trecho que ilustrasse o quadro que vos desafio a descobrirem:
o autor e o título .
Decidi pelo SONETO DE ORFEU sem cortes ... completo ..., para saborearmos toda a sua beleza.
São demais os perigos dessa vida
Para quem tem paixão, principalmente
Quando uma lua surge de repente
E se deixa no céu, como esquecida
E se ao luar, que atua desvairado
Vem unir-se uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher
Uma mulher que é feita de música
Luar e sentimento, e que a vida
Não quer, de tão perfeita
Uma mulher que é como a própria lua:
Tão linda que só espalha sofrimento,
Tão cheia de pudor que vive nua.
Vinícius de Moraes
Quanto ao Desafio ainda o mantenho. Aceita? Qual o Autor e título do quadro deste post? Fico à espera do seu comentário. Até breve...
A National Gallery de Londres e agora o Museu do Louvre em Paris colocam perante os nossos olhos algumas obras de Leonardo da Vinci, através de exposições organizadas em redor de períodos bem distintos da vida deste pintor.
A exposição da National Gallery (que terminou este mês) abrangia obras do período em que viveu na corte de Ludovico Sforza - "Leonardo da Vinci: Pintor da Corte de Milão". Esta exposição não incluía a mais famosa obra deste artista - "A Gioconda" (que terá começado a pintar por volta de 1503, quando regressou a Florença, depois do ducado de Milão ter caído nas mãos dos Franceses em 1499).
Pois bem, a partir de 29 de Março a 25 de Junho de 2012, nova exposição, dedicada a Leonardo, terá lugar no Museu do Louvre - "A Última Obra-prima de Leonardo: Santa Ana".
Agora sim, "Gioconda" vai marcar presença, mas não vai estar sozinha!
Lado a lado com ela brilhará uma réplica deste quadro, encontrado nas reservas do Museu do Prado.
Após uma intervenção cuidada esta "Gioconda" mostrou que não é mais uma cópia, mas é um "retrato executado em paralelo, uma espécie de fotocópia pintada em simultâneo por um aluno (Andrea Salai ou Francesco Melsi) , enquanto Leonardo da Vinci pintava a obra-prima" ("The Art Newspaper").
Aqui fica uma (boa) sugestão para os admiradores da obra de Leonardo da Vinci.
Nestes dias em que uma vaga de frio varre a Europa, deixando-nos a tiritar, só me apetece uns docinhos que me forneçam algumas calorias e uma bebida bem quentinha que me "aqueça" a alma.
Mas é preciso cuidar da silhueta, pois se abuso do açúcar ... ops! ... lá vêm mais alguns quilitos.
Descobri, no entanto, uma fórmula mágica para consumir açúcar sem engordar!
Não acreditam?
Ora vejam:
Georg Flegel
"Natureza-Morta com Pão, Doces, Copo e Borboleta"
c. 1637
Óleo sobre madeira - 21,9x17,1 cm
Frankfurt, am Main, Städel Museum
Nesta pequena obra recheada de doçarias, Georg Flegel (1563-1638) representou, como ninguém, a estrutura cristalina do açúcar cristalizado.
A introdução do açúcar na alimentação europeia provocou uma revolução radical do paladar.
Se antes era o mel que adoçava a vida das populações, a partir do séc. XVI, segundo Duarte Nunes Leão, com " ... a invenção das ilhas da Madeira, do Cabo Verde, de Sam Tomé e do Brasil, de que vem cada ano tanta carregação de açúcares, não curamos de gastar mel ...".
Mas, se na fase inicial da expansão portuguesa e da produção de açúcar, este apenas se consumia com fins medicinais, a partir do século XVI passa a ser usado na doçaria.
Os banquetes das classes abastadas encheram-se de numerosos pratos e terminavam sempre com sobremesas.
Nesta obra de Georg Flegel aparecem essencialmente doces, que são alimentos dispendiosos elaborados por mestres confeiteiros.
Nela podemos observar frutos secos (figos) e especiarias cobertos com açúcar, que segundo a tradição tinham propriedades medicinais e facilitavam a digestão.
Em cima de uma mesa estão representados: uma tigela chinesa, um copo veneziano, uma tarte, em forma de coração e um pão branco.
A disposição dos alimentos, neste quadro, parece aleatória, no entanto, contém algumas alusões religiosas. Encontramos frutos cristalizados em forma de letras: um "O" maiúsculo e um "A" meio desfeito, representando o Alfa e o Ómega ( a primeira e a última letra do alfabeto grego), como referência a Cristo - o princípio e o fim. Um torrão rectilíneo de açúcar está colocado sobre um pão branco, formando uma cruz, o que nos eleva a Deus. Aparecem ainda o pão e o vinho evocando a Eucaristia.
Flegel não se esqueceu de incluir neste quadro uma borboleta e outros insectos, advertindo-nos para a efemeridade da vida.
Após observar este quadro fiquei saciada, os doces confortaram-me, sem correr o risco de prejudicar a saúde!
Referências:
Bauer, Herman, Andreas Prater - Barroco, Taschen, 2007
Castro, Armando de - Desenvolvimento das actividades produtivas - in História de Portugal, Vol. II, direcção de José Hermano Saraiva, Pub. Alfa, 1983
Schneider, Norbert - Naturezas-Mortas, (A Pintura de Naturezas Mortas nos Primórdios da Idade Moderna), Taschen, 2009
O autor do quadro "Casas em L´Estaque" - 1908, é Georges Braque.
Braque (1882-1963) viveu algum tempo em L´Estaque, cidade costeira do Sul de França e ... foi neste local que pintou as suas primeiras paisagens pré-cubistas.
Matisse, em 1908, como membro do júri do "Salon d`Automne" afirmou que Georges Braque apresentava pinturas "com pequenos cubos...".
E o escritor Guillaume Apollinaire, em 1912, escreveu: " A nova pintura é denominada Cubismo. Foi assim nomeada com mordacidade por Henri Matisse, quando reparou nas formas cúbicas claramente perceptíveis numa pintura com edifícios".
Pois foi precisamente com este quadro que Braque retratou uma paisagem com edifícios, onde vemos telhados e fachadas de casas. Mas, nesta aldeia, não há só casas, está também presente a natureza através das planícies verdes, parecendo que a estamos a ver a partir de uma colina.
As casas pintadas, nesta tela, não têm janelas nem qualquer outro elemento, estão confinadas às formas mais simples e aqui e ali sobressaem os verdes e os castanhos da natureza.
Cá estou, mais uma vez, a lançar um desafio.
Não, não é difícil.
Pintor e quadro muito conhecidos do movimento cubista.
Aceita o repto?
Qual o pintor da obra aqui "postada".
Aguardo a sua colaboração.
Até breve!
Juan Gris "O Pequeno-almoço" 1915 Óleo e carvão sobre tela - 92x73 cm Musée National d´Art Moderne, Centre Pompidou Paris
"Na composição deste trabalho, Gris faz referência à já bem comprovada utilização estética do papier collé. (...) Gris abordou um tema que combinava objectos do dia-a-dia: uns pedaços de jornal dobrados, uma taça, um copo, uma cafeteira e finalmente uma garrafa. Todos os objectos que estão representados foram pintados aplicando técnicas várias ou tipos diferentes de pintura. A taça e o copo estão desenhados. A cafeteira, que é sugerida ao centro no fundo do quadro, está dividida em três segmentos: uma secção central pintada em cinzento, a continuação dos contornos na faixa de cor verde, e finalmente o restante do contorno do bico está pintado na superfície de cor azul. A garrafa, por outro lado, está desenhada em campos de cor verde; parece estar a crescer das tiras dobradas do jornal reproduzido esculturalmente. As superfícies coloridas da pintura estão colocadas lado a lado, como se se tratasse de vários suportes. Para além da sua composição de cor, estas representam um material que imita contraplacado de madeira de cor ocre e papel de jornal verde. A superfície composta com cores ocre e cinzento, na parte inferior da pintura, faz lembrar as paisagens de Georges Braque de L´Estaque, no sul de França (...)."
Trier, Anne Ganteführer -, "Cubismo", Taschen, Bona, 2009, p.90
Hoje é Dia de Reis e manda a tradição que se comam alguns bagos de romã.
Maluda "Romã" 1984
Os múltiplos bagos vermelhos, brilhantes, quase vítreos, vislumbrados entre rasgos de casca que estalou, são um apelo aos nossos sentidos.
Este fruto, símbolo de fertilidade, abundância e prosperidade surge em muitas naturezas-mortas.
Joris Van Son (1623-1667) Pormenor do quadro "Nature-morte d´apparat à la colonne" c. 1662 Colecção do Barão Samuel von Brukenthal
Jean-Baptiste Camille Corot (1796-1875) "Natureza-Morta" c. 1871-1872
Gustave Courbet (1819-1877) "Natureza-morta com maçãs e romãs" c. 1871-1872 The National-Gallery, Londres
As romãs trazem-me sempre a lembrança da casa da minha bisavó materna, onde havia, no quintal, junto à porta da cozinha uma árvore de pequeno porte, mas que em determinada época do ano (que na altura, devido à minha pouca idade, não conseguia identificar) se enfeitava com uns estranhos frutos que tinham coroas como as princesas...
Na casa da minha bisavó contavam-se muitas histórias de reis e rainhas, fadas e heróis, lendas e adivinhas ... o que eu gostava de ouvir as minhas tias-avós dizer adivinhas! ... sobretudo aquela que perguntava : "De Roma veio meu nome, com coroa nasci. Tive mil filhinhos, e todos de vermelho os vesti."
Ah! ... fingia sempre que não a conhecia (depois de a ouvir dezenas de vezes) e exclamava como se tivesse descoberto a resposta: É a romã !!!
No Dia de Reis abriam-se romãs e comiam-se alguns bagos, pedindo aos Reis Magos, Baltazar, Belchior e Gaspar: saúde, paz, amor e dinheiro. Cortavam-se as coroas das romãs e colocavam-se, até ao ano seguinte, na gaveta onde se guardava o dinheiro, para que este não faltasse. Não sei se resultava, mas em tempos tão difíceis era bom que a tradição ainda fosse o que era. Não custa nada tentar ...
Votos de FELIZ NATAL a todos os Visitantes deste blogue !
Leonardo da Vinci "A Virgem dos Rochedos" c. 1483-85 Óleo sobre madeira - 199x122 cm Museu do Louvre, Paris
O Nascimento de Jesus é um acontecimento que tem sido tema artístico ao longo de muitos séculos, no entanto, os artistas do Renascimento representaram-no de forma mais delicada e natural, abandonando as composições rígidas e formais. "A Virgem dos Rochedos" de Leonardo da Vinci faz parte das obras que representam a Virgem Maria de forma delicada e protectora.
Este ano (a partir de Novembro) e até ao próximo dia 5 de Fevereiro de 2012 reunem-se na National Gallery, de Londres oito pinturas e algumas dezenas de desenhos e estudos de Leonardo da Vinci, numa exposição intitulada "Leonardo da Vinci, Pintor na Corte de Milão".
A este período da vida de Leonardo da Vinci, na Corte de Ludovico Sforza, Milão, pretencem duas versões da "Virgem dos Rochedos" - uma pertencente ao Museu do Louvre (c. 1483-85), outra à National Gallery (c. 1495-1508) e que é possível observar lado a lado nesta exposição (acontecimento certamente irrepetível).
Os impressionistas franceses revolucionaram o modo de exprimir a realidade visível, desligaram-se da representação fiel da natureza para reproduzir a sua verdade perceptiva e sensível. Para poderem reproduzir uma realidade tão mutável experimentaram profundas inovações técnicas, saindo dos seus ateliers e pintando directamente "sur le motif" ao ar livre e perante a natureza. Procuraram captar os efeitos da luz, que davam ao seu trabalho características de imediatismo e espontaneidade, por isso, não surpreende que encontrassem motivo para o seu estudo nos jardins interiores. O jardim privado emergiu, assim como um tema favorito dos impressionistas.
Pierre-Auguste Renoir "The Garden in the Rue Cortot, Montmartre" 1876 Óleo sobre tela- 152x97 cm Carnegie Museum of Art, Pittsburgh
O Jardim na Rue Cortot era um parque de um castelo do século XVIII, que estava descuidado quando Renoir o descobriu em 1875-76. A sua beleza selvagem e a proximidade do "Moulin de La Galette" (que se tornou tema de uma das suas mais famosas pinturas) levou o pintor a alugar uma casa de campo nesta rua para si e para a sua família. O Jardim da Rue Cortot serviu para Renoir como estúdio fora de portas e também como tema para a sua pintura. A natureza indomável do jardim leva-nos para a pincelada larga e variada do estilo impressionista, que no caso de Renoir adquiriu uma liberdade sem precedentes. As dálias vibrantes e incandescentes, que surgem em primeiro plano, são o verdadeiro motivo deste quadro! No plano do fundo surgem duas figuras masculinas - possivelmente os seus amigos Claude Monet e Alfred Sisley - paradas,em pé, a conversar. A liberdade de Renoir brilha nos traços que parecem tecer as duas figuras nos padrões criados pela luz fria e pela sombra contrastante que envolve o jardim.
Há algum tempo que tenho a intenção de colocar este post mas, por razões várias da minha vida, ainda não tinha tido oportunidade de o fazer. Falo da Exposição "A Perspectiva das Coisas - A Natureza-Morta na Europa" II Parte, que pode ser vista no Museu Calouste Gulbenkian, em Lisboa, até dia 8 de Janeiro de 2012. Quem visita esta exposição observa um excelente espectáculo de luz e cor e tem uma óptima oportunidade de assistir ao dealbar da modernidade na pintura. A II parte da Exposição "A Natureza-Morta na Europa" Séculos XIX-XX (1840-1955) parte de uma Europa transformada após o legado de Napoleão e se este género pictórico se manteve estável desde o século XVI até ao final do século XIX, vai sofrer "... uma fragmentação ou mesmo um colapso relativo no século XX, um século dominado pelas Vanguardas e pelo Modernismo". * Nesta mostra estão reunidas 93 obras de 70 artistas, oriundas de Museus, Instituições, Colecções públicas e privadas espalhadas um pouco por todo o mundo e que o comissário Neil Cox (Professor da Universidade de Essex, especialista em arte francesa do século XX, com tese de doutoramento sobre Picasso) organizou não de forma cronológica, mas distribuindo-as por temas, abordados em 12 núcleos.
A Exposição começa com o núcleo "Reflexões sobre a presença" e um quadro de Paul Cézanne, "Natureza-Morta com Pote de Gengibre e Beringelas"- 1893-94.
"O desafio que a arte da maturidade de Cézanne nos coloca é que façamos uma avaliação do que é coexistir com um mundo de coisas em nosso redor e de como percepcionamos e pensamos a realidade que se apresenta perante nós". **
A exposição continua com o tema "Negociar a tradição: dádivas da Natureza e artifícios". "Na segunda metade do século XIX, em Paris, muitos artistas procuraram rever a tipologia-padrão tipo das naturezas-mortas académicas patentes nos Salons oficiais. Mas foi preciso confrontar os códigos existentes, como fez Gustave Courbet, para se encontrar alternativas à tradição académica." **
Édouard Manet "Flores numa Jarra de Cristal" c. 1882 Óleo sobre tela - 32,7x24,5 cm
Caminhando em direcção ao núcleo "Jogos de relações: a natureza-morta enquanto forma" encontramos, entre outros ...
Claude Monet "Ramo de Girassóis" 1881 Óleo sobre tela - 101x81,3 cm
Vincent van Gogh "Ramos de Castanheiro em Flor" 1890 Óleo sobre tela - 73x92 cm
O núcleo " Estrutura e espaço" abarca os primeiros anos do século XX que " ...ficaram marcados, na pintura, por uma rápida sucessão de inovações radicais: o abandono do naturalismo no desenho ou na cor e a rejeição sumária da construção em perspectiva, a própria representação podendo ser concebida de novo como uma linguagem de signos ou como vestígio expressivo da experiência subjectiva".**
Juan Gris "Vista da Baía" 1921 óleo sobre tela - 63,5x96,5 cm
Avançando na exposição encontramos o tema "Exílios e outros: política, primitivismo e o eu interior". "Uma das principais correntes de pensamento que contribuiu para o desenvolvimento da arte moderna foi a da crescente valorização dos indivíduos e das culturas consideradas marginais, "os estranhos" ou "os outros", por contraste com a "civilização" da Europa Ocidental. Gauguin e Van Gogh procuraram novos modelos para a sua arte entre as comunidades rurais e também nas estampas e outros objectos japoneses, como na "Natureza-Morta com leque".
Paul Gauguin "Natureza-Morta com Leque" 1888 Óleo sobre tela - 50x61cm
Henri Matisse "Natureza-Morta, Ramo de Dálias e Livro Branco" 1923 Óleo sobre tela - 50,2x61 cm
Em "A essência das coisas: materialidade e imaterialidade" podemos observar como na "arte moderna, a interrogação da existência das coisas anda a par de um questionamento radical das estratégias da representação. Os trabalhos de cubistas, futuristas e outros grupos da vanguarda colocavam uma variedade de questões profundas sobre as condições ou a perspectiva a partir das quais podemos apreender as coisas na pintura, sobre a natureza da realidade do mundo exterior, ou mesmo sobre a nossa capacidade de a transformar ou refazer." **
Georges Braque Natureza-Morta (Jornal e Limão) 1913 Óleo, grafite e carvão sobre tela - 34,8x26,7 cm
Caminhando mais um pouco encontramos o núcleo :"A vida moderna: máquinas e produção em massa" onde a máquina é celebrada pela primeira vez na arte moderna com o Futurismo, na obra de artistas como Carlo Carrà, Boccioni e Gino Severini."
Ao passarmos ao núcleo "Modernismo: identidades nacionais e a atracção de Paris" podemos apreciar como " o Modernismo parisiense foi para muitos artistas europeus a referência central no desenvolvimento das suas práticas artísticas." ** Neste núcleo encontramos trabalhos de artistas portugueses como Amadeo de Souza-Cardoso, Eduardo Viana, Mário Eloy e Vieira da Silva que estudaram nos círculos modernistas de Paris.
Eduardo Viana "K4 Quadrado Azul" c.1916 Óleo sobre tela - 47,5x56 cm
E a visita prossegue com a tema "As próprias coisas: o choque da fotografia". "O desenvolvimento da natureza-morta na modernidade teve lugar a par com a circulação generalizada de fotografias e (posteriormente) com a invenção do cinema." **
E por que não avançar um pouco mais e observarmos o núcleo "A crise do objecto: sonhos e pesadelos"? " O Surrealismo, movimento literário e artístico fundado por Breton com diversos outros poetas, escritores e artistas franceses em 1924, procurava acima de tudo transformar a realidade através da força da imaginação." **
René Magritte "O Retrato" 1935 Óleo sobre tela - 73x50 cm
Estamos agora perante o núcleo "Da cena de caça ao horror" onde vi alguns visitantes recuarem discretamente, talvez pouco à vontade ... seria ?
Pablo Picasso "Natureza-Morta com Caveira e Três Ouriços-do-Mar" 1947 Óleo sobre tela - 60x72,5 cm
E estamos finalmente chegados ao último núcleo: "Da Perspectiva das coisas". "Esta exposição coloca várias questões: Afinal, o que significa a natureza-morta na modernidade? Será que o género foi capaz de sobreviver aos muitos desafios que se colocaram, como é demonstrado pelas obras aqui presentes, derivados do Cubismo, Futurismo, Dadaísmo, Construtivismo e surrealismo? E terá resistido à brutalidade dos acontecimentos ocorridos no mundo?" **
Com o percorrer desta exposição fazemos uma viagem através de vários tempos e geografias da natureza-morta na pintura ocidental.
Ao terminar esta visita tive a tentação de voltar atrás e rever todas as obras expostas, mas os meus olhos, a minha mente e o meu coração estavam cheios, não valia sobrecarregá-los, por isso prometi a mim mesma que havia de regressar e voltar a observar estas obras.
Aconselho vivamente uma visita a esta Exposição, mas não deixem para o final (8 de Janeiro de 2012) porque felizmente está a ser muito concorrida ...
Preço da entrada: cinco euros
* Catálogo da Exposição ** Desdobrável da Exposição
Gostaria de vos mostrar algumas imagens da montagem desta exposição:
Termino este post com uma vista geral da exposição:
No Pavilhão Preto do Museu da Cidade, em Lisboa, vai estar patente, até dia 29 de Janeiro de 2012, uma exposição intitulada: "Frida Kahlo - As suas fotografias". Esta exposição mostra um pouco da história pessoal de Frida Kahlo e da sua intimidade, do país em que nasceu e da época em que viveu. Pablo Ortiz Monasterio (historiador e fotógrafo mexicano) seleccionou 257 das 6500 fotografias que fazem parte do espólio da Casa Azul/ Museu Frida Kahlo no México e comissariou esta exposição constituída por seis núcleos: Os Pais: Guillermo e Matilde; A Casa Azul; O Corpo Acidentado; Os Amores de Frida; A Fotografia; e A Luta Política. Do acervo da Casa Azul/ Museu Frida Kahlo fazem parte, entre outros objectos, vestidos, livros, revistas, documentos, fotografias, muitas fotografias ... e são algumas dessas fotografias ( não essas ... mas fotos de fotos executadas pelo fotógrafo mexicano Gabriel Figueroa) que podemos apreciar no Museu da Cidade, em Lisboa.
Hoje, segundo a tradição, comemora-se a Noite das Bruxas e mesmo para aqueles que não acreditam nelas, há que ter em conta a velha frase popular da Galiza "eu non creo nas meigas, mais habelas hainas" - ( eu não acredito em bruxas, mas elas existem). Não sei se Goya acreditava nelas, mas que as pintou, pintou ...
Francisco Goya (1746/1828), durante a sua longa vida, testemunhou um dos períodos mais conturbados da História da Europa. Viveu uma época marcada pelas ideias iluministas, pela Revolução Francesa e pelas Guerras Napoleónicas. Entre 1808 e 1814 assitiu aos horrores da Guerra Peninsular, quando as tropas de Napoleão Bonaparte invadiram a Espanha, depõem o rei e o substituem pelo seu irmão José Bonaparte. São deste período algumas das pinturas mais dramáticas de Goya. Já antes da Revolução Francesa e das campanhas napoleónicas muitos artistas "agarraram" em temas relacionados com a morte, mas Francisco Goya foi, talvez, um dos mais arrojados quer nos temas que escolheu, quer na forma como os tratou.
Goya, após prolongada doença, passou de "pintor da corte" a "pintor político" e "crítico social" e as suas obras deixaram de transmitir apenas o mundo exterior em que vivia, para passar a revelar também as visões e os pesadelos que existiam no seu pensamento. Em 1799 publicou uma série de 80 gravuras a água-forte intitulada "Caprichos" - palavra que está relacionada com fantasias pessoais e extravagâncias - que Goya caracterizava como caricaturas que não pretendiam atacar ninguém (esta era certamente uma forma de se defender e proteger de ataques jurídicos). Mas é precisamente através destas gravuras que Goya se dá a conhecer como apoiante das ideias iluministas.
Mas a par das gravuras perturbadoras da série "Caprichos" pintou também telas representando feitiçarias, assassinatos e a loucura.
O quadro "Bruxas no Ar" faz parte desse período do pintor.
Francisco Goya "Bruxas no Ar" Óleo sobre tela - 43,5x31,5 cm 1797-1798 Madrid, Colecção Jaime Ortiz Patiño
Neste quadro Goya pinta bruxas que se elevam enquanto sugam o sangue de alguém moribundo ou já morto. No solo um homem cobre a cabeça com um pano branco e faz "figas" com os dedos para afastar os maus espíritos, enquanto outro, aterrorizado, deitado no chão, protege a cara com as mãos para não ver a cena.
Esta noite das Bruxas sugeriu-me a apresentação deste quadro de Goya.
No Museu do Prado, Madrid, encontra-se uma pintura que me causa alguma perplexidade - a obra "Saturno" de Francisco Goya.
Francisco Goya "Saturno" Óleo sobre tela - 146x83cm 1820-1823
Este quadro faz parte das chamadas "pinturas negras" da casa de Goya. Nelas as figuras aparecem de olhos esbugalhados, mostrando o branco na parte superior e as pupilas na inferior, as bocas surgem abertas ou a comer. É deste modo que Goya pinta Saturno, rei dos Titãs.
Saturno é o deus romano que foi equiparado ao grego Cronos, filho de Úrano (o Céu) e de Geia (a Terra). Avisado, pela sua mãe ou pelo oráculo, que um dos seus filhos o deporia do trono, devorou-os um a um à medida que nasciam.
Goya ao pintar este quadro, quis dar-nos esta visão de horror, para isso utilizou um pincel grosso registando toda a acção com um realismo brutal. Esqueceu todas as referências deste mito antigo e apenas nos mostra um monstro devorando avidamente um cadáver.
Pois foi precisamente este um dos quadros que Vik Muniz "retrabalhou", reproduzindo-o em grande escala.
Vik Muniz "Saturno devorando um dos seus filhos, depois de Francisco Goya" 2005
Vik Muniz "construiu" esta obra com lixo e uma das leituras possíveis será pretender mostrar-nos que, tal como Saturno, enlouquecido pelo poder, não quer dar espaço às gerações seguintes, também a sociedade de consumo está indiferente ao mundo que deixa às novas gerações.
Tal como no mito de Saturno é preciso proteger a sua mãe Geia (a Terra)!
Completam-se hoje 200 anos sobre o nascimento de Franz Liszt (1811-1886), considerado unanimemente um dos maiores compositores de todos os tempos, assim como um pianista genial. Sobre este príncipe do Romantismo Alan Walker, a propósito do seu virtuosismo como pianista, escreveu “ Liszt era um fenómeno natural e a audiência era dominada por ele ... com a sua cativante personalidade e a sua larga melena de cabelo solto criou uma encenação assombrosa. Muitas das testemunhas declararam, mais tarde, que a forma de interpretar do pianista elevou o estado de ânimo dos espectadores a um nível de extâse místico”.
Mas Liszt não foi só imortalizado pela genialidade da sua obra, foi-o também por alguns fotógrafos e pintores da sua época.
Para assinalar esta data elejo dois quadros, de dois artistas que o pintaram: Henri Lehmann (1814-1882) e Josef Danhauser (1805-1845).
O primeiro foi amigo de Liszt, aluno de Ingres e mestre de Camille Pissarro e Georges Seurat. Retratou também Gounod, Chopin, Stendhal, entre outros notáveis seus contemporâneos.
Henri Lehmann "Retrato de Franz Liszt2 Óleo sobre tela - 1,130x 0,860cm 1839 Museu Carnavalet - Paris
O segundo, Josef Danhauser, um artista austríaco, foi um elemento proeminente do período Biedermeier e pintou, em 1840, este imaginativo retrato colectivo.
Josef Danhauser "Franz Liszt fantasiando ao piano" Óleo sobre tela - 119x167cm 1840
Neste retrato de conjunto podem ser identificados, sobre o piano o busto de Ludwig van Beethoven; sentados da esquerda para a direita, Alexandre Dumas (pai), George Sand, Franz Liszt, Marie d´Agoult; de pé Hector Berlioz ou Victor Hugo, Niccolo Paganini, Gioachino Rossini. Na parede podemos ainda ver um retrato de Byron e sobre uma consola, à esquerda, uma estátua de Joana d´Arc.
Aqui deixo uma singela homenagem a Franz Liszt e aos que o pintaram.
Entrar num Museu e depararmo-nos com obras executadas com materiais completamente improváveis, instáveis ou mesmo perecíveis como a calda de chocolate, o açúcar, a pasta de amendoim, o caviar ou o lixo ... arregalam-se-nos os olhos! Assim é a exposição VIK do artista brasileiro Vik Muniz patente no Museu Colecção Berardo, Lisboa, até ao último dia do ano de 2011.
Vik Muniz nasceu em 1961 em São Paulo, Brasil, e vive actualmente em Nova Iorque. Desde que começou a trabalhar, teve sempre como objectivo: comunicar com as massas através do desempenho de vários papéis como designer, escultor, fotógrafo, pintor, crítico, criador de ilusões...
Esta exposição reune cerca de 100 obras desde os anos 80 até à actualidade constituindo uma retrospectiva da obra deste artista, fazendo com que o espectador perceba o processo criativo do autor e a evolução do seu trabalho.
Para Vik Muniz "a arte não é para a elite", por isso " o desafio [do meu trabalho] é levá-lo para um público mais diversificado, com a esperança de atrair mais interesse para o universo das artes plásticas, que oferece tanto para tão poucos" - Vik Muniz.
Ultimamente este artista desenvolveu projectos que envolvem comunidades desprotegidas e problemáticas como as dos Meninos de rua de São Paulo ou a dos "catadores" de lixo no Rio de Janeiro. Este último deu origem ao filme "Lixo Extraordinário" que teve o prémio do público de melhor documentário no Festival de Sundance em 2010.
Para quem não conhece a obra deste artista coloco aqui algumas imagens do seu trabalho, utilizando apenas o critério da diversidade de materiais, e um pequeno vídeo que nos mostra de alguma forma o seu processo criativo.
Material - calda de chocolate
Material - geleia de uva e manteiga de amendoim
Material - macarrão e molho de tomate
Material - diamantes
Material - lixo
Poderia colocar mais imagens mas creio que para amostra chega. Vale a pena ir ao Museu Colecção Berardo, (Centro Cultural de Belém) ver estas e outras obras, pois lá ganham outra magnificência.
Esta é uma Exposição a não perder ... e tem entrada gratuita.
"Nós devemos a cada instante, reconquistar o sentido da vista, pois os nossos olhos transformam-se rapidamente em holofotes distraídos. Olhemos, por consequência, gratuitamente."
José Escada
José Escada nasceu em Lisboa em 1934. Ainda antes dos 20 anos, teve um atelier no Rossio, com Lourdes Castro, René Bertholo, João Vieira e Gonçalo Duarte, seus companheiros da ESBAL (Escola Superior de Belas Artes de Lisboa). Muito activos começaram a participar em exposições, sobretudo nas iniciativas da Sociedade Nacional de Belas Artes e editaram de 1953 a 1955 a revista VER. Profundamente católico, José Escada aderiu ao Movimento de Renovação de Arte Religiosa.
Nos finais dos anos 50 parte para Paris. Em 1960, com os companheiros de atelier, que também tinham partido para Paris e a que se juntaram Costa Pinheiro, Jan Voss e Christo Javacheff forma o KWY. O grupo expõe em Sarrebrucken, Lisboa, Paris e Rio de Janeiro. Em 1962, em Roma, concedeu uma entrevista à rádio italiana onde criticou o regime de Salazar, facto que lhe valeu o estatuto de exilado. Em 1968, Marcelo Caetano pôs fim ao seu exílio político. José Escada faz parte do grupo de artistas que contribuiram, nos anos 60, para a renovação da arte portuguesa.
Tirando algumas obras dos anos 60 os seus desenhos, pinturas e recortes têm quase sempre uma matriz figurativa.
Visitei há algumas semanas uma exposição do pintor José Escada (1934-1980), no Centro de Arte-Colecção Manuel de Brito, Palácio Anjos/Algés, que vai estar patente até dia 2 de Outubro.
Esta exposição mostra um conjunto considerável de obras, mais de 70 de 1951 a 1979, percorrendo as várias fases do pintor. Mas a obra de José Escada, apesar desta exposição, permanece ainda desconhecida e a necessitar de um trabalho de pesquisa e apresentação/divulgação mais vasto.
José Escada começou como artista por volta dos anos 50, nesta fase a sua obra aproxima-se de Jean Bazaine e Alfred Manessier pela abordagem que estes pintores fizeram à arte religiosa. Nos anos 60, quando já estava emigrado/exilado em Paris admirou Paul Klee e Matisse e na sua fase de realismo simbólico aproximou-se da Gauguin. Segundo Eurico Gonçalves "O trajecto estético de José Escada passa pelo informalismo gestual , a pintura-desenho de signos-neofigurativos a caligrafias em relevo, recortadas em cartolina e material plástico de cor translúcida, antes de desembocar no realismo poético, autobiográfico e intimista, da sua derradeira fase".
Fiquei interessada em conhecer a obra deste artista que tão precocemente deixou a vida (aos 46 anos). Mas como escreveu António Alçada Baptista, seu amigo, "Para os que julgam que ele acabou no desespero, posso assegurar que, cada vez mais despojado das coisas, morreu na esperança e que, com ela, manteve até ao fim o olhar, a curiosidade e a inquietação da infância".
Foi este olhar, esta curiosidade e esta inquietação que encontrei tanto nos trabalhos a tinta da china, como nos com jogos de cor e formas simétricas que se repetem, repetem ... Mas as minhas emoções explodiram numa pequena sala, tão intimista, quase um relicário, onde estão expostas as obras que mais me sensibilizaram: "Rosácea", "A levitação", "Pensando em Chartres" ...
Esta é uma exposição a não perder...
José Escada "Pensando em Chartres" Óleo sobre tela - 32x46cm 1971
Referências:
"Repetir transformando" - José Luis Porfírio - Suplemento Atual do Semanário Expresso - 6/8/2011; "O senhor dos papéis" - Cláudia Almeida - Revista Visão - 8/9/2011; "José Escada no CAMB - Centro de Arte Manuel de Brito" - Catálogo da Exposição; "José Escada" - Folheto Informativo da Exposição
No último post escrevi sobre algumas "Dánae" de Ticiano e digo isto porque além das que vos apresentei existem outras que são atribuídas a Ticiano.
Mas como prometi vou continuar com este tema mitológico visto por outros pintores.
Rembrandt (1606-1669) foi outro artista que representou Dánae.
Rembrandt
"Dánae"
Óleo sobre tela - 185x202,5cm
Museu do Hermitage - São Petersburgo
Esta obra é incrivelmente audaz para a pintura holandesa do século XVII; mostra-nos uma mulher completamente nua e muito próxima do observador.
Rembrandt não representou a chuva de ouro, alterando assim a clássica iconografia do encontro amoroso entre Dánae e Zeus.
Esta heroína mitológica surge neste quadro como esperando o amado e por isso tem sido algumas vezes confundida com Vénus esperando Marte.
Mas o mito de Dánae não podia escapar a Gustav Klimt (1862-1918), porque a sua arte é plena de sensualidade e erotismo. A mulher é o seu principal tema, quase exclusivo: pinta-a nua ou sumptuosamente ornamentada, deitada ou em pé, em todas as posições e atitudes.
Como podia deixar de pintar Dánae?
Klimt não lhe ficou indiferente e na Exposição de 1908 apresenta duas alegorias da humanidade, uma delas Dánae.
Pinta-a como um "paparazzo", tornando-nos "voyeurs" e cúmplices.
Gustav Klimt
"Dánae"
Óleo sobre tela
1907/08
Colecção Privada, Viena
Klimt "fixa" o momento em que Zeus "visitou" Dánae disfarçado de chuva de ouro e dessa visita nasceu um filho: Perseu.
Gustav Klimt escolheu pintar o momento preciso da concepção de Perseu: uma torrente de moedas de ouro misturadas com espermatozóides dourados transbordam entre as coxas volumosas da "princesa adormecida".
O mito de Dánae, para Klimt, não é mais do que um pretexto para representar o extâse amoroso feminino.
Vou deixar-vos com algumas das muitas Dánae pintadas por artistas de várias épocas:
"O meu perfil é duro como o perfil do mundo. Quem adivinha nele a graça da pintura? Pedra talhada a pico e sofrimento, é um muro hostil à volta do pomar. Lá dentro há frutos, há frescura, há quanto faz um quadro doce e desejado; mas quem passa na rua nem sequer sonha que do outro lado a paisagem da vida continua."
Miguel Torga - Diário VI 1953 (adaptado)